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A arquitetura racional e sensível de Zanettini

Siegbert Zanettini

Reconhecido internacionalmente pelo exímio trabalho com estruturas metálicas, sendo apelidado de “Papa do Aço no Brasil”, o arquiteto e urbanista Siegbert Zanettini reconhece a sua alcunha e assume que ninguém conhece tão bem a estrutura metálica quanto ele. Fruto dos 50 anos, completados em 2009, dedicados à arquitetura. Mais do que projetos, trabalhando sobre conceitos, foi pioneiro, e continua sendo, no desenvolvimento de novas tecnologias e sistemas construtivos com estruturas de aço, madeira, concreto e alvenaria armada na construção civil.
Pertencente à primeira geração de professores doutores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo (FAU-USP), Zanettini soube aliar conhecimento teórico à prática profissional, desde sua formação, no final da década de 50. A extensão da sua obra inclui mais de 1.200 projetos já desenvolvidos em 5 milhões de metros quadrados, além de ultrapassar quatro décadas de vida dedicadas ao conhecimento acadêmico. “A paixão pela arquitetura, a doação sem limites pelo ofício para a realização de meus sonhos, fizeram da minha vida uma busca permanente, com a razão sempre cúmplice da sensibilidade”, justifica o arquiteto.
Com uma postura independente e crítica da arquitetura anacrônica e especulativa, seu trabalho reflete uma constante procura por inovação e avanço. Desde o Projeto Casa Limpa na ECO 92, por exemplo, o arquiteto já trabalha com os princípios fundamentais que hoje são amplamente divulgados para as construções sustentáveis. É autor, com José Wagner Garcia como co-autor, da ampliação do CENPES – Centro de Pesquisas da Petrobras no Rio de Janeiro, a ser concluído em julho de 2010, e que será referência em sustentabilidade para todo país. O Portal Obra24horas conversou com Zanettini sobre os rumos da arquitetura sustentável no país e a viabilidade da utilização de estruturas metálicas para construção no uso em escala. Confira a nossa entrevista!
 
Portal Obra24horas: O Brasil ainda não possui tantas obras que empregam estruturas metálicas. O que o senhor atribui esse fato: falta de cultura ou um sistema tecnológico compatível?
Siegbert Zanettini: São várias as razões porque no Brasil as estruturas metálicas se restringem a menos de 3% do total de obras. A cadeia da construção civil permanece ainda presa à tecnologia tradicional para atender interesses econômicos das empresas imobiliárias, incorporadoras e construtoras, cuja produção se apoia ainda na utilização de mão de obra desqualificada, de baixa qualidade, baseada no trabalho escravo e de custo baixo. Além disso, o que se observa é a falta de interesse político por parte dos governos federal, estaduais e municipais - que mantém atitudes reacionárias à utilização de novos sistemas produtivos. Exemplo disso é a restrição que a Caixa Econômica Federal vem a muitos anos colocando-se contrária a qualquer avanço técnico na área.
A produção ainda é baseada - em sua maioria pelo parque industrial do aço desestruturado, com baixa capitalização e pouco poder com o setor – em utilizar o perfil produzido a partir do corte de chapa soldado e laminado longitudinalmente, compondo o perfil com um custo adicional de 15 a 20% sobre o perfil laminado, que é a forma de produção correta e usada em todos os países que produzem estruturas metálicas.
Há também poucos profissionais arquitetos e engenheiros que dominam a tecnologia. E isso por conta da precariedade no ensino dessa disciplina nas escolas de arquitetura e engenharia de todo o país.
Tudo isso contribuiu para o atraso do uso do aço como estrutura no Brasil, primeiro porque todo o período que constituiu o movimento moderno na arquitetura, desde a década de 20 até nossos dias, utilizou o concreto armado como principal material estrutural, o que resultou em uma grande evolução tecnológica do mesmo, atingindo hoje um alto padrão de qualidade. O aço, por sua vez, pela inexistência de siderúrgicas e fábricas de estruturas até a década de 60 atrasou, em relação aos países desenvolvidos, o desenvolvimento dessa tecnologia tanto na produção como, principalmente, no seu conhecimento.
 
Portal Obra24horas: A indústria do aço tem apostado suas fichas no uso em escala do material para viabilizar o programa habitacional “Minha Casa, Minha Vida”. Como o senhor avalia a relação custo-benefício do aço na construção de casas populares?
Siegbert Zanettini: Eu mesmo já elaborei um conjunto residencial em Cubatão na década de 90 concebido com estrutura metálica e fechamento em painéis de tijolo cerâmico com argamassa dupla feitos na obra. Foi a primeira obra destinada a moradia popular executada, mas, infelizmente, a CDHU não compreendeu o conceito, colocando a mesma por concorrência de preço e sem nenhum acompanhamento técnico meu. O resultado pela inexperiência na execução do canteiro ocasionou vários problemas e o sistema construtivo foi abandonado. A lição que fica é que se os sistemas com estruturas metálicas não forem conceituais e executivamente corretos, feitos por empresas que conheçam as patologias que podem ocorrer, ou se o projeto e a construção não incorporarem a correta linguagem projetual e construtiva de trabalho do aço, os resultados serão problemáticos. Já fizemos inúmeros projetos e de grande complexidade com resultados excepcionais em tempo, qualidade e desempenho. Não vejo nenhum obstáculo em usá-lo na construção de casas e edifícios populares, como já são feitos há anos em diversos países.
 
Portal Obra24horas: O senhor é o responsável pelo projeto de ampliação do Centro de Pesquisas da Petrobras, o CENPES 2, hoje maior obra sustentável do país. Qual foi a parte mais difícil desse projeto?
Siegbert Zanettini: O projeto tem co-autoria com José Wagner Garcia, que mesmo antes de terminado já vem sendo considerado dentro e fora do país como uma obra paradigmática pela sua beleza, qualidade e desempenho funcional, e como a maior obra sustentável já feita no País. Muitos especialistas já consideram um divisor de águas na arquitetura e engenharia contemporâneas do Brasil e a colocam como uma das principais obras do mundo em tecnologia sistêmica e visão holística compatível com o século XXI. A própria Petrobras a tem como a menina de seus olhos, pois representa o que existe de mais atual no desenvolvimento de pesquisa na produção de energia limpa.
Uma obra dessa envergadura conceitual só poderia ser edificada com um grupo integrado de projetos constituído de 25 profissionais, construtores, técnicos, laboratórios e um exército de cinco grandes empresas e 2.800 funcionários numa sequência programada de montagem das mais variadas disciplinas e especialidades. Sem dúvida, a parte mais difícil foi a compatibilização das 30 disciplinas envolvidas, e a coordenação e assistência técnica à obra nestes dois últimos anos. Será a grande diferença no Brasil em tecnologia, sustentabilidade e eco-eficência.
 
Portal Obra24horas: O que o senhor acha dos selos e certificações que atestam a sustentabilidade da obra? Eles são mesmo necessários ou servem apenas como ferramenta de marketing?
Siegbert Zanettini: Embora as questões de sustentabilidade e eco-eficiência não sejam coisas novas, pois eu trabalho com ambas há 40 anos, inclusive na Eco 92 fiz o único projeto sustentável no País, e o projeto Casa Limpa que já continha todos os conceitos de sustentabilidade. No entanto, não há o que negar sobre a oportunidade de incorporar esses temas que constituem questões estruturais para a visão contemporânea da arquitetura. Nesse caso, os selos verdes e as certificações são procedimentos que valorizam a sustentabilidade na obra. A postura oportunista que a especulação imobiliária vem adotando em projetos que em nada tem de sustentável é sempre o lado deturpado que a ganância econômica utiliza como ferramenta de marketing.
 
Portal Obra24horas: O senhor acredita no futuro da arquitetura sustentável como sendo apenas “arquitetura”, com todos os conceitos da sustentabilidade já inseridos naturalmente nos seus princípios?
Siegbert Zanettini: Há alguns anos atrás, precisamente na época em que abria a minha Sala Especial sobre projetos hospitalares na ADH’ 2003 São Camilo Hospitalar e quando recebi a homenagem (Melhor Arquiteto na Área Hospitalar) pelo extraordinário empenho em prol da Arquitetura Hospitalar no Brasil, coloquei o conceito de “Arquitetura sem adjetivos”. Este conceito rejeita as diferenças de arquitetura residencial, coorporativa, hospitalar, bancária, para simplesmente recolocar a definição arquitetura pura e simplesmente que é ampla, completa, abrangente e contém, quando é de qualidade, todas as tipologias e conceitos de sustentabilidade que nada mais são que a interação profunda que a arquitetura tem com o meio ambiente natural e construído. Daí minha definição hoje extremamente conhecida: “Arquitetura é o resultado físico-espacial do encontro equilibrado e harmônico do mundo racional e sensível”.

 

Entrevista para a jornalista Mércia Ribeiro, redatora do Portal Obra24horas
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